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Educação Inclusiva

Se adaptar atividade significa só diminuir exercícios, precisamos conversar

Adaptação Pedagógica não significa só diminuir exercícios: vamos conversar
Adaptação Pedagógica.

Se você é professor, eu tenho uma pergunta para fazer: quando aparece um estudante da Educação Especial na sua sala, qual é a primeira coisa que vem à cabeça?

Se você respondeu “vou ter que adaptar as atividades”, saiba que você não está sozinho. Essa é, talvez, a maior preocupação que escuto quando converso com professores, coordenadores e equipes pedagógicas.

E, sinceramente? Eu entendo e já passei por isso!

Vamos conversar?

A formação inicial quase nunca nos ensina, de forma prática, como adaptar uma atividade. Então, a gente aprende na tentativa e erro. Pergunta para um colega, procura uma atividade pronta na internet, conversa com o professor do AEE… e vai fazendo o melhor que consegue.

O problema é que, nesse caminho, alguns “mitos” acabam sendo repetidos tantas vezes que passam a parecer verdade.

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi frases como:

“Ah, para esse estudante eu faço só metade da atividade.”

“Esse aqui nem faz a mesma prova que os colegas.”

“Vou imprimir uma atividade diferente para ele não atrapalhar a turma.”

Talvez você já tenha pensado exatamente assim. E tudo bem. Eu também já vi essas situações acontecerem inúmeras vezes nas escolas.

Mas preciso dizer uma coisa: adaptar atividade não é isso.

Na verdade, muitas práticas que acreditamos serem inclusivas acabam produzindo exatamente o contrário: afastam o estudante da aprendizagem e fazem com que ele participe menos do que acontece na sala de aula. Por isso, neste artigo quero conversar com você sobre sete erros muito comuns nas escolas e mostrar como pequenas mudanças podem transformar a forma como planejamos nossas aulas.

Seis erros na adaptação pedagógica

Erro nº 1 — Achar que adaptar é diminuir a quantidade de exercícios

Se existe um erro que eu vejo se repetir nas escolas, é este.

Basta o professor descobrir que um estudante precisa de uma adaptação pedagógica e, quase automaticamente, a primeira ideia é reduzir a quantidade de exercícios. É como se adaptar significasse simplesmente “fazer menos”.

A turma responde vinte questões, enquanto o estudante da Educação Especial responde cinco. A produção textual pede vinte linhas, mas ele escreve apenas cinco. A prova tem dez perguntas e, para ele, ficam apenas três.

Mas eu sempre gosto de fazer uma pergunta durante minhas formações: será que diminuir a quantidade de exercícios resolve, de fato, a dificuldade de aprendizagem?

Na maioria das situações, a resposta é não.

Pense, por exemplo, em um estudante que encontra dificuldades para compreender textos muito longos. Se eu apenas retirar algumas perguntas, mas mantiver o mesmo texto complexo, o problema continuará exatamente onde estava. A barreira não desapareceu, apenas diminuiu a quantidade de atividades que ele terá dificuldade para fazer.

É por isso que costumo dizer que o problema raramente está na quantidade de exercícios. O verdadeiro desafio costuma estar na forma como o conteúdo foi apresentado.

Talvez esse estudante compreenda melhor quando o texto é organizado em pequenos blocos, quando há imagens apoiando a leitura, quando as palavras mais importantes aparecem destacadas ou quando as instruções são divididas em etapas menores.

Percebe a diferença?

Uma adaptação pedagógica de qualidade não começa retirando questões da atividade. Ela começa tentando identificar quais barreiras estão impedindo aquele estudante de acessar a aprendizagem.

Erro nº 2 — Fazer uma atividade completamente diferente da turma

Outro equívoco bastante frequente acontece quando confundimos inclusão com separação.

Na tentativa de ajudar, alguns professores acabam preparando uma atividade totalmente diferente para o estudante da Educação Especial. Enquanto toda a turma trabalha determinado conteúdo, esse estudante recebe outra proposta, muitas vezes sem qualquer relação com o que está sendo estudado pelos colegas.

Talvez você já tenha presenciado situações assim.

A turma está aprendendo frações e o estudante recebe uma folha para ligar figuras. Os colegas estão produzindo um texto e ele recebe um desenho para colorir. Embora isso possa parecer um cuidado ou uma forma de facilitar a participação, na prática o efeito costuma ser justamente o contrário.

Quando isso acontece, o estudante deixa de participar da mesma experiência de aprendizagem da turma. Ele está presente fisicamente na sala, mas acaba excluído do processo pedagógico.

Por isso, sempre reforço que adaptar não significa criar uma atividade diferente. Adaptar significa construir caminhos diferentes para que todos possam aprender o mesmo conteúdo.

Se a turma está produzindo um texto, por exemplo, alguns estudantes podem escrever um texto completo, outros podem organizar frases, utilizar palavras-chave, recorrer a figuras ou até recursos de comunicação alternativa. O objetivo permanece o mesmo. O conteúdo continua sendo o mesmo.

O que muda é a estratégia utilizada para que cada estudante consiga participar da aprendizagem. E essa diferença é enorme.

Erro nº 3 — Planejar pensando apenas no diagnóstico

Esse é um assunto que sempre merece atenção.

Com frequência escuto perguntas como: “Você tem uma atividade para autismo?” ou “Qual atividade devo aplicar para um estudante com deficiência intelectual?”

Minha resposta costuma ser sempre a mesma: não existe atividade para diagnóstico.

Existe atividade para um estudante que aprende de uma determinada maneira.

O diagnóstico traz informações importantes, mas ele não explica, sozinho, como aquela criança aprende. Dois estudantes com o mesmo laudo podem apresentar características completamente diferentes.

Um pode ler com autonomia e interpretar textos com facilidade. Outro pode precisar de apoio para compreender pequenas instruções.

Um pode gostar de desafios matemáticos. Outro pode aprender muito melhor quando manipula materiais concretos.

Por isso, antes de olhar para o laudo, olhe para o estudante.

Observe como ele participa das aulas, quais estratégias despertam seu interesse, quais recursos favorecem sua aprendizagem e quais situações geram maior envolvimento.

Nenhuma lista pronta encontrada na internet consegue substituir a observação cuidadosa que o professor faz todos os dias em sala de aula.

É esse olhar atento que permite construir adaptações realmente significativas.

Seis erros na adaptação pedagógica.
Erros na adaptação pedagógica.

Erro nº 4 — Acreditar que o profissional de apoio faz a adaptação

Esse talvez seja um dos assuntos que mais gera dúvidas nas escolas.

Ainda existe a ideia de que a adaptação pedagógica é responsabilidade do profissional de apoio. Mas não é assim que a legislação e as boas práticas da educação inclusiva organizam esse trabalho.

O profissional de apoio exerce uma função extremamente importante, principalmente nas necessidades relacionadas ao cuidado, à autonomia, à mobilidade, à alimentação, à higiene e ao acesso às atividades escolares.

Entretanto, o planejamento pedagógico continua sendo responsabilidade do professor.

Isso não significa que o docente precise fazer tudo sozinho.

Muito pelo contrário.

As melhores experiências de inclusão acontecem quando existe diálogo entre professor, profissional de apoio, Atendimento Educacional Especializado (AEE), equipe pedagógica e família.

Cada profissional possui atribuições específicas e complementares.

Quando todos compreendem seus papéis e trabalham em parceria, o estudante recebe um atendimento muito mais consistente e a inclusão acontece de forma muito mais efetiva.

Erro nº 5 — Deixar para adaptar somente quando a dificuldade aparece

Esse erro costuma acontecer porque, muitas vezes, planejamos nossas aulas imaginando que todos os estudantes aprenderão da mesma maneira.

Só depois que a atividade começa percebemos que alguém não conseguiu acompanhar o restante da turma. Nesse momento, tentamos improvisar uma solução.

Mas inclusão não combina com improviso. Ela depende de planejamento. Sempre que preparo uma aula, gosto de pensar antecipadamente em algumas perguntas.

  • Quem poderá precisar de apoio visual?
  • Quem talvez necessite de mais tempo?
  • Quem aprenderá melhor utilizando materiais concretos?
  • Quem poderá demonstrar sua aprendizagem oralmente?

Quando fazemos esse exercício antes da aula acontecer, a adaptação deixa de ser uma resposta à dificuldade e passa a fazer parte do próprio planejamento pedagógico. E isso torna o processo muito mais tranquilo para o professor e muito mais significativo para o estudante.

Erro nº 6 — Avaliar todos exatamente da mesma maneira

Existe uma pergunta que sempre provoca uma boa reflexão. Se ensinamos de formas diferentes, por que insistimos em avaliar todos exatamente da mesma forma?

Avaliação inclusiva não significa reduzir critérios, facilitar excessivamente ou aprovar estudantes sem aprendizagem. Também não significa criar privilégios.

O que ela propõe é reconhecer que diferentes estudantes podem demonstrar aquilo que aprenderam utilizando diferentes formas de expressão.

Alguns conseguem registrar seus conhecimentos por escrito. Outros apresentam melhor desempenho em uma avaliação oral. Há estudantes que conseguem explicar um conceito utilizando materiais concretos, recursos visuais, tecnologia assistiva ou outras estratégias.

O mais importante é que a avaliação permita verificar aquilo que o estudante realmente aprendeu, e não apenas medir sua habilidade para responder uma prova tradicional. Afinal, avaliar é compreender a aprendizagem, e não apenas atribuir uma nota.

Inclusão não acontece na folha adaptada. Ela acontece na prática pedagógica.

Antes de adaptar atividades, é preciso planejar considerando a diversidade da turma. Adaptar não significa criar tarefas diferentes para cada estudante, mas utilizar estratégias, metodologias e recursos que favoreçam diferentes formas de aprender.

As adaptações pedagógicas tornam o ensino mais acessível e significativo. Mais importante do que modificar uma atividade é garantir que cada estudante participe, desenvolva autonomia, aprenda e se sinta pertencente ao ambiente escolar. Assim, a inclusão passa a integrar a prática pedagógica.

Profº Gustavo Thayllon
Escrito por

Profº Gustavo Thayllon

Gustavo Thayllon França Silva é psicólogo, psicopedagogo, professor, pesquisador e escritor, com trajetória profissional e acadêmica construída na interface entre Psicologia, Psicopedagogia, Educação Especial, inclusão escolar e desenvolvimento humano. Ao longo de sua carreira, tem dedicado sua atuação à compreensão dos processos de aprendizagem, das singularidades do desenvolvimento e dos desafios que atravessam a escolarização de crianças, adolescentes e adultos, especialmente daqueles que demandam atenção educacional e acompanhamento especializado.

Sua formação interdisciplinar constitui uma das marcas de sua trajetória. Graduado em Psicologia, Psicopedagogia e Pedagogia, construiu uma formação voltada à compreensão do sujeito em suas múltiplas dimensões: psíquica, cognitiva, afetiva, social e educacional. É mestre em Educação e Novas Tecnologias e, atualmente, desenvolve estudos em nível de Doutorado em Educação, aprofundando suas investigações sobre autismo, políticas públicas e inclusão escolar. Sua pesquisa de doutorado parte de uma questão central e profundamente presente no cotidiano das escolas — “O que esta criança tem?” — para problematizar os impasses das políticas públicas de inclusão e os modos como a escola compreende e responde às singularidades das crianças autistas.

Sua formação foi ampliada por estudos especializados em áreas como Psicologia Clínica, Neuropsicologia, Psicopatologia, Psicanálise Clínica, Terapia Familiar, Psicomotricidade, Transtorno do Espectro Autista, Análise do Comportamento Aplicada — ABA, Transtornos Mentais, Neurobiologia e Psicofarmacologia, Atendimento Educacional Especializado e Educação Especial e Inclusiva. Essa formação plural sustenta uma atuação que busca estabelecer diálogos entre a clínica, a escola, a família e as políticas de inclusão.

Como escritor, construiu uma produção bibliográfica expressiva, com mais de 30 livros publicados, além de capítulos de livros, artigos científicos e outros materiais acadêmicos. Sua obra percorre diferentes campos do conhecimento, mas possui como um de seus principais eixos a relação entre Psicologia, Psicopedagogia, Neurociências, Educação Especial e desenvolvimento humano.

Entre seus livros destacam-se obras como Psicologia Educacional, Psicologia Relacional, Psicologia Social no Tribunal e na Clínica, Percepção Social, Atitudes e Cognição, Desenvolvimento Humano nas Diversas Faixas Geracionais: Abordagens Psicopedagógicas e Psicológica, Psicanálise Aplicada à Psicopedagogia, Educação e Psicanálise, Fundamentos de Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Neuropsicopedagogia Clínica, Neurociências e Aprendizagem e Transtornos Funcionais Específicos da Aprendizagem.

No campo da Educação Especial, é autor de obras como Fundamentos da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, Deficiência Visual e Práticas Inclusivas, Práticas e Metodologias Voltadas ao Atendimento Educacional Especializado e à Sala de Recurso Multifuncional, Orientação na Educação Inclusiva, Supervisão na Educação Inclusiva, FTM do Ensino da Pessoa com Deficiências Múltiplas, FTM do Ensino da Pessoa com Altas Habilidades ou Superdotação, Surdez e Educação Física Inclusiva para Pessoas com Deficiência. Também é coautor da obra Ensino da Matemática na Educação Especial: Discussões e Propostas, ampliando sua contribuição para a construção de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas.

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