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Meu aluno não aprende matemática: e agora? O que realmente funciona na sala de aula?

Meu aluno não aprende matemática: e agora?

Você já saiu de uma aula com aquela sensação de que explicou o conteúdo de Matemática de todas as formas possíveis e, mesmo assim, alguns estudantes continuaram sem compreender?

Se você respondeu “sim”, saiba que não está sozinho — também passei por isso em sala de aula. E sinto lhe falar: essa é uma das maiores angústias dos professores da Educação Básica das diferentes modalidades de ensino.

Afinal, ensinamos, damos exemplos e contraexemplos, resolvemos atividades, situações-problema, repetimos a explicação… e, mesmo assim, alguns estudantes continuam dizendo: “Professor, eu não entendi.”

Nesse momento, é comum surgir uma série de perguntas, como:

  • Será que o problema está no estudante?
  • Será que ele tem dificuldade de aprendizagem?
  • Será que falta atenção?
  • Ou será que preciso mudar a maneira como estou ensinando?

A verdade é que não existe uma resposta única.

A aprendizagem matemática é um processo complexo, que envolve linguagem, memória, raciocínio lógico, atenção, experiências anteriores e até aspectos emocionais. Muitas vezes, o estudante não aprende porque ainda não construiu conhecimentos básicos que servem de base para novos conteúdos — ou, como muitos conhecemos, o conhecimento prévio.

E é justamente sobre isso que vamos conversar neste texto. Vou mostrar por que tantos estudantes apresentam dificuldades em Matemática, quais são os “possíveis” erros mais comuns que cometemos sem perceber e, principalmente, quais estratégias poderíamos adotar para transformar a aprendizagem dentro da sala de aula.

Antes de dizer que o estudante “não aprende”, precisamos entender por que ele não aprende

Existe uma frase muito comum nas escolas: “Esse aluno não aprende Matemática.” Mas será que isso é realmente verdade?

Na maioria das vezes, o estudante aprende, mas ainda não aprendeu da forma como estamos ensinando. Para entender melhor, pensem comigo: quando um aluno chega ao 5º ano sem compreender bem o sistema de numeração decimal, dificilmente conseguirá resolver operações com números decimais ou frações.

Da mesma forma, um estudante que nunca consolidou o conceito de quantidade terá dificuldade para compreender multiplicação, divisão ou porcentagem no 6º ou 7º ano. Ou seja: muitas dificuldades atuais são consequência de lacunas construídas ao longo da escolarização.

Por isso, antes de pensar em reforço ou recuperação, precisamos descobrir exatamente onde está a dificuldade. Perguntemo-nos:

  • O estudante compreende o enunciado?
  • Ele domina os conhecimentos anteriores?
  • A dificuldade é no cálculo ou na interpretação?
  • O problema está no raciocínio ou apenas na memorização?

Essas perguntas ajudam muito mais do que simplesmente repetir exercícios.

Nem toda dificuldade em Matemática significa um transtorno de aprendizagem

Esse é um ponto muito importante. Nos últimos anos, aumentou bastante o número de estudantes encaminhados para avaliação porque apresentam dificuldades em Matemática. Mas dificuldade não é sinônimo de transtorno.

Antes de pensar em hipóteses como discalculia, é necessário analisar diversos fatores:

  • histórico escolar;
  • oportunidades de aprendizagem;
  • metodologia utilizada;
  • frequência escolar;
  • aspectos emocionais;
  • motivação para aprender;
  • compreensão da linguagem matemática.

Somente uma avaliação criteriosa pode indicar se existe um transtorno específico de aprendizagem. Na maioria das vezes, as dificuldades estão relacionadas à forma como o conhecimento foi construído — ou deixou de ser construído — ao longo da trajetória escolar.

como aprender matemática em cinco estratégias.
Como aprender Matemática.

Cinco estratégias que realmente ajudam os estudantes a aprender Matemática

Depois de compreender a origem das dificuldades, chega a parte mais importante: o que fazer na prática?

1. Comece sempre pelo concreto

A Matemática não nasce no caderno: ela nasce nas experiências que o nosso estudante vivencia em sala de aula com ela.

Quais possibilidades? Material dourado, blocos lógicos, tampinhas, palitos, jogos, dinheiro fictício e objetos do cotidiano ajudam o estudante a compreender conceitos antes de representá-los simbolicamente.

Quando o estudante manipula, ele compreende; depois, ele representa; e, como etapa final, ele abstrai.

2. Descubra onde começou a dificuldade

Nem sempre o conteúdo atual é o problema. Às vezes, a dificuldade começou anos antes.

Por isso, vale a pena fazer pequenas atividades diagnósticas antes de iniciar um novo conteúdo. Essa investigação permite identificar quais conhecimentos precisam ser retomados antes de avançar.

3. Valorize o raciocínio, não apenas a resposta

Muitos estudantes chegam ao resultado errado utilizando estratégias interessantes. Talvez aí esteja o nosso “pulo do gato”, pois pode ser este o momento de uma excelente oportunidade de aprendizagem.

Pergunte:

  • Como você pensou?
  • Por que escolheu esse caminho?
  • Existe outra maneira de resolver?

Quando valorizamos o processo, desenvolvemos o pensamento matemático.

4. Utilize situações do cotidiano

A Matemática faz muito mais sentido quando aparece em contextos reais, como:

  • compras no mercado;
  • receitas culinárias;
  • jogos;
  • medidas;
  • tempo;
  • dinheiro.

Tudo isso aproxima o conteúdo da realidade do estudante e aumenta significativamente seu interesse.

5. Trabalhe o erro como parte da aprendizagem

Um dos maiores inimigos da aprendizagem matemática é o medo de errar. Quando o estudante acredita que errar significa fracassar, ele deixa de tentar e, logo, deixa de aprender — exatamente o que não queremos como professores.

O erro, na verdade, revela hipóteses, estratégias e formas de raciocinar. Por isso, mais importante do que corrigir rapidamente é compreender por que aquele erro aconteceu.

O papel do professor vai muito além de ensinar contas

Durante muito tempo, acreditamos que ensinar Matemática era explicar procedimentos. Hoje sabemos que ensinar Matemática significa desenvolver formas de pensar. O professor deixa de ser apenas quem apresenta regras e passa a ser um mediador da construção do conhecimento.

Isso significa:

  • criar desafios;
  • fazer perguntas;
  • estimular diferentes estratégias;
  • promover discussões;
  • valorizar o raciocínio dos estudantes.

Quando a sala de aula se transforma em um espaço de investigação, a aprendizagem acontece de forma muito mais significativa.

E quando, mesmo assim, o estudante continua apresentando dificuldades?

Nem sempre conseguimos resolver tudo apenas com mudanças metodológicas. E sim, caro colega professor: muitas vezes será necessário um acompanhamento mais cuidadoso. Para isso, siga alguns passos:

  • registre as dificuldades observadas;
  • dialogue com a equipe pedagógica;
  • converse com a família para compreender como o estudante lida com a aprendizagem fora da escola.

Se houver indícios consistentes de dificuldades persistentes, mesmo após diferentes intervenções pedagógicas, a escola poderá orientar a realização de uma avaliação especializada.

O mais importante é lembrar que nenhum estudante deve ser definido apenas por suas dificuldades. Toda intervenção precisa partir da compreensão de suas potencialidades, de suas formas de aprender e das oportunidades que a escola pode oferecer para que ele avance.

Na prática: como trabalhei a Matemática com significado em sala de aula

Lembro de uma atividade que desenvolvi com uma turma dos anos iniciais, em que muitos estudantes apresentavam dificuldades para compreender o sistema monetário. Sempre que trabalhávamos apenas com o livro didático, eles conseguiam resolver algumas das atividades propostas, mas tinham dificuldade para relacionar aqueles cálculos com situações reais — trocas do sistema monetário, por exemplo.

Foi então que organizei um “mercadinho” dentro da sala de aula. Utilizamos embalagens vazias de alimentos, etiquetas com preços, “dinheirinho” e uma calculadora para conferência dos valores (com cunho investigativo). Cada estudante recebeu um desafio diferente: alguns precisavam comprar ingredientes para preparar uma receita; outros tinham um valor máximo para gastar e precisavam decidir quais produtos levar.

Durante a atividade, observei algo interessante. Estudantes que normalmente demonstravam insegurança nas aulas de Matemática passaram a discutir estratégias, comparar preços, calcular troco e justificar suas escolhas para os colegas. A Matemática deixou de ser apenas uma sequência de contas no caderno e passou a fazer sentido, porque estava conectada a uma situação que eles conheciam.

Essa experiência reforçou uma aprendizagem que levo para minha prática docente: quando o estudante compreende a utilidade da Matemática em seu cotidiano, ele se envolve mais, participa ativamente e constrói conhecimentos de forma muito mais significativa. Afinal, ensinar Matemática não é apenas ensinar a calcular; é ajudar a criança a interpretar, resolver problemas e tomar decisões em diferentes situações da vida.

Então, qual é a moral que podemos tirar de tudo isso?

Talvez, quando um estudante diz que “odeio Matemática”, muitas vezes ele esteja dizendo outra coisa: “Eu ainda não consegui aprender.” Essa diferença muda completamente o nosso olhar.

Em vez de perguntar “por que esse aluno não aprende?”, talvez a pergunta mais importante seja: “O que ainda não descobri sobre a forma como ele aprende?”

E, infelizmente, a resposta dificilmente será encontrada em mais listas de exercícios ou em repetições mecânicas de procedimentos. Ela nasce da observação, da escuta, do planejamento e da disposição para experimentar novas estratégias.

Ensinar Matemática é, acima de tudo, acreditar que todos podem aprender — cada um no seu tempo, com seus desafios e por caminhos diferentes.

Profº Anderson Minosso
Escrito por

Profº Anderson Minosso

Anderson Minosso é professor, pesquisador, escritor e formador de professores, com atuação voltada à Educação Matemática, Educação Especial e Inclusiva, formação docente e inovação pedagógica.

É doutor em Formação Científica, Educacional e Tecnológica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Atualmente, é pós-doutorando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).

Possui mestrado em Educação Básica pela Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), especialização em Metodologia do Ensino de Matemática e Física pelo Centro Universitário Internacional UNINTER, especialização em Educação Especial e Inclusiva pela FAEL e graduação em Matemática – Licenciatura pelo Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Concórdia e Licenciado em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional UNINTER.

Ao longo de sua trajetória profissional, atuou como professor no Colégio CEM e como Assessor Pedagógico de Matemática no Grupo Positivo, desenvolvendo programas de formação continuada para professores da Educação Básica. Atualmente, é professor do quadro permanente da Prefeitura Municipal de Curitiba (PR) e docente em cursos de graduação e pós-graduação.

É autor de livros destinados à Educação Básica e ao Ensino Superior, produzindo obras que articulam fundamentos teóricos e aplicações práticas para professores, estudantes e pesquisadores. Seus trabalhos concentram-se nas áreas de Educação Matemática, formação de professores, Educação Especial e Inclusiva, currículo, metodologias de ensino e desenvolvimento profissional docente.

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