Alunos atípicos não verbais com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar um padrão restrito de interesses, sendo muito comuns casos em que eles só se envolvem em atividades como pareamento ou montagem de quebra-cabeças. Esse cenário, embora desafiador, abre espaço para ações pedagógicas bem planejadas e sensíveis, que respeitam o perfil da criança e, ao mesmo tempo, ampliam gradualmente seu repertório de aprendizado.
Entendendo o aluno atípico não verbal com interesses restritos
O termo “atípico” refere-se à criança que apresenta desenvolvimento diferente do considerado típico, seja em aspectos neurológicos, comportamentais, motores ou de linguagem. Quando falamos em um aluno não verbal, nos referimos àquele que não se comunica por meio da fala funcional, embora possa compreender comandos e expressar-se de outras formas.
É comum que esses alunos apresentem interesses restritos ou uma forte preferência por atividades repetitivas, como parear objetos ou montar o mesmo quebra-cabeça diversas vezes. Isso não deve ser encarado como uma barreira, mas como um ponto de partida para intervenção pedagógica personalizada.
Por que alguns autistas só realizam pareamento ou quebra-cabeça?
Essa preferência pode estar relacionada a características do TEA, como:
- Previsibilidade e controle: atividades como pareamento e quebra-cabeça têm início, meio e fim claros;
- Estímulo visual: muitos autistas têm forte afinidade com estímulos visuais e organizados;
- Satisfação sensorial: a repetição pode trazer conforto e sensação de segurança;
- Dificuldades na linguagem ou interação social: atividades mais simples reduzem a necessidade de interações complexas.
Embora essas atividades sejam importantes, o ideal é ampliar gradualmente o repertório, sempre respeitando os limites e interesses da criança.
O que são atividades estruturadas e por que elas funcionam?
Atividades estruturadas são propostas organizadas de forma visual, lógica e previsível. Para crianças com TEA, esse tipo de organização é essencial para compreensão e engajamento. Um ambiente estruturado reduz a ansiedade, aumenta a concentração e facilita a execução das tarefas.
As atividades estruturadas são geralmente compostas por:
- Modelo visual da tarefa (ex: imagem do que deve ser feito);
- Passo a passo com apoio visual ou físico;
- Espaço delimitado para a execução;
- Tempo estimado ou definido visualmente;
- Finalização clara (atividade com fim visível, como o término de um quebra-cabeça).
Essas características ajudam o aluno a entender a proposta e a executar a tarefa de forma independente.
Como ampliar o repertório de atividades de forma respeitosa
O objetivo principal não é abandonar o que a criança gosta, mas usar seus interesses como ponte para novos aprendizados. A transição deve ser feita aos poucos, com atividades que mantenham elementos familiares e tragam um pequeno desafio adicional.
Exemplo: se o aluno só faz pareamento de cores, é possível criar uma atividade em que ele pareie objetos iguais e depois os organize por quantidade, introduzindo noções matemáticas básicas.
É fundamental que o professor observe o que motiva a criança, o que causa frustração e em que momentos ela demonstra maior engajamento. Assim, é possível planejar atividades que ampliem gradualmente seu universo de ações e interações.
Sugestões de atividades para além do pareamento
A seguir, algumas propostas de atividades acessíveis e eficazes para alunos não verbais com interesse restrito em pareamento e quebra-cabeças:
- Sequência de histórias em figuras: organize imagens em sequência lógica (ex: lavar as mãos, escovar os dentes) para montar narrativas visuais;
- Classificação de objetos: agrupar objetos por cor, tamanho, forma ou função (ex: alimentos vs. brinquedos);
- Encaixe com formas geométricas: ir além do quebra-cabeça tradicional, utilizando blocos ou moldes com formas específicas;
- Atividades sensoriais com bandejas: bandejas com grãos, areia ou texturas variadas que estimulam o toque e a coordenação;
- Jogos de causa e efeito: brinquedos que emitem som, luz ou movimento quando a criança pressiona um botão ou realiza uma ação;
- Exploração com cartões de comunicação (CAA): associar figuras a objetos reais para introduzir a comunicação alternativa.
Dicas para usar o pareamento e o quebra-cabeça como ponto de partida
Essas atividades favoritas não devem ser descartadas, mas sim aproveitadas para expandir o interesse da criança. Algumas estratégias incluem:
- Adicionar uma etapa à atividade: após o pareamento, pedir que o aluno verbalize (com figuras) o nome do objeto;
- Incluir pares novos: inserir figuras novas para aumentar a dificuldade e estimular atenção e categorização;
- Relacionar o quebra-cabeça a temas curriculares: quebra-cabeça com imagens de letras, números, animais ou profissões;
- Transformar o pareamento em atividade social: fazer em dupla, estimulando a troca de peças entre colegas.
Como a escola pode apoiar o desenvolvimento desse aluno
O papel da escola é essencial no desenvolvimento global do aluno atípico. Algumas práticas fundamentais incluem:
- Criação de rotina visual: com quadros de horários ilustrados;
- Adaptação curricular individualizada: respeitando o nível de desenvolvimento da criança;
- Formação da equipe pedagógica: em temas como comunicação alternativa, análise do comportamento e práticas inclusivas;
- Parceria ativa com a família: compartilhando estratégias e evoluções da criança;
- Uso de tecnologias assistivas e materiais visuais: como cartões de PECS, tablets com aplicativos de comunicação e brinquedos adaptados.
Formação recomendada para educadores que atuam com TEA
Profissionais que desejam atuar com alunos não verbais e com interesses restritos devem investir em formações voltadas à educação inclusiva. As principais áreas de estudo incluem:
- Transtorno do Espectro Autista (TEA);
- Educação Especial e Inclusiva;
- Psicopedagogia Clínica e Institucional;
- Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA);
- Estratégias pedagógicas para neurodivergências.
Quer continuar aprendendo? Que tal ler o post Painéis sensoriais: o que são e como apoiar alunos com autismo E veja mais conteúdos no blog da São Luís e conheça os cursos ideais para quem quer transformar vidas por meio da educação inclusiva!