Se você é professor, sua pós é São Luís.
Feito por professores para professores
material para download

Rima ou não rima? Atividade de rimas adaptada para trabalhar consciência fonológica com inclusão

Rima ou não rima? Atividade de rimas adaptada para trabalhar consciência fonológica com inclusão

Você já parou para pensar no que realmente está avaliando quando pergunta a um estudante se uva e chuva rimam? Parece uma tarefa simples. Mas, para responder, ele precisa guardar duas palavras na memória, comparar os sons finais e ainda formular uma resposta oral. Quando erra, é comum concluirmos que ele não percebeu a rima. Nem sempre é isso.

Para muitos estudantes em alfabetização, a barreira não está na percepção do som, mas na soma de todas essas exigências ao mesmo tempo. Foi pensando nisso que o Prof. Gustavo França criou o kit Rima ou não rima?, uma atividade de rimas adaptada em que a imagem sustenta a palavra e o cartão SIM ou NÃO sustenta a resposta. Neste artigo, você vai entender por que a rima importa tanto, onde estão as barreiras escondidas na tarefa e como aplicar o material na sua sala. 🎯

Por que a rima é uma porta de entrada para a alfabetização

A consciência fonológica é a capacidade de refletir sobre os sons da fala: perceber que as palavras podem ser divididas, comparadas e manipuladas. Ela não surge de uma vez. Desenvolve-se em camadas, da unidade maior (palavras e rimas) até a menor (fonemas).

A rima costuma ser o primeiro degrau desse caminho. Um estudo brasileiro que avaliou a consciência fonológica ao nível da rima em crianças de 4 a 8 anos utilizou tarefas de Julgamento de Rimas e Detecção de Rimas, e os autores retomam um dado importante da literatura internacional: segundo Bryant e Bradley, crianças que continuam insensíveis à rima correm risco de fracassar na leitura e na ortografia. Outra pesquisa na mesma linha encontrou diferenças significativas entre crianças de 4 a 5 anos e de 6 a 8 anos no julgamento de rimas, reforçando que o contato com a escrita aprimora capacidades metafonológicas que já existiam. Desenvolvimento da consciência fonológica em crianças de 4 a 8 anos de idade: avaliação de habilidades de rima +2

No português, essa relação também está documentada. Estudos conduzidos no Brasil indicam que, também na ortografia da língua portuguesa, a consciência fonológica é pré-requisito para aprender a ler e escrever. Ou seja: trabalhar rimas não é “brincadeira de educação infantil”. É intervenção pedagógica com fundamento. SciELO

Onde está a barreira: no som ou na resposta?

Quando decompomos a pergunta “essas palavras rimam?”, encontramos pelo menos três exigências simultâneas:

Memória: o estudante precisa manter as duas palavras “ativas” na cabeça enquanto pensa. Se ele esquece a primeira ao ouvir a segunda, a comparação fica impossível.

Comparação sonora: é a habilidade que de fato queremos observar, isolar o final das palavras e perceber a semelhança.

Expressão oral: o estudante precisa transformar o que percebeu em uma resposta falada, muitas vezes diante do professor e dos colegas.

Para um estudante com dislexia, que já tem um processamento fonológico mais exigente, a sobrecarga de memória pode derrubar o desempenho. Para um estudante com TEA, a resposta oral pode ser a parte mais difícil da tarefa, mesmo quando a percepção do som está preservada. E se for com deficiência intelectual, sustentar duas palavras abstratas sem apoio concreto pode ser o obstáculo principal.

O kit ataca cada uma dessas barreiras sem mexer no objetivo. A imagem mantém a palavra presente, o que alivia a memória. O par único reduz a comparação ao essencial. E o cartão de resposta permite mostrar o que percebeu sem depender da fala. Essa lógica conversa diretamente com o Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), que defende oferecer múltiplos meios de expressão para que todos cheguem ao mesmo objetivo por caminhos diferentes.

O que vem no kit Rima ou não rima?

O material é um kit para imprimir e recortar, com 9 páginas em A4:

  • pranchas com 20 pares de imagens, cada uma com um quadrado de resposta;
  • faixa de comando, que organiza visualmente a pergunta;
  • 40 cartões SIM RIMAM e NÃO RIMAM;
  • prancha em branco para montar pares personalizados;
  • gabarito para o professor;
  • ficha de registro das respostas.

Para a confecção, você vai precisar de papel 180 g, plastificação ou papel adesivo, velcro e um envelope para guardar os cartões. A plastificação faz diferença: o material será manuseado muitas vezes e precisa durar o ano todo.

Passo a passo da atividade

  1. Mostre um par de imagens por vez. Cubra ou guarde os outros para evitar distração.
  2. Nomeie cada figura em voz alta antes de fazer a pergunta.
  3. Pergunte: as palavras rimam? Aponte para a faixa de comando.
  4. Deixe o estudante escolher o cartão SIM RIMAM ou NÃO RIMAM e fixá-lo no quadrado do par.
  5. Reforce a resposta correta e repita as duas palavras, alongando o som final: “ga-tooo… pa-tooo”.
  6. Registre as respostas na ficha de registro.

O alongamento do final é um detalhe poderoso. Ele transforma a rima em algo audível e quase “visível”, ajudando o estudante a perceber exatamente onde está a semelhança.

💡 A virada de chave: nomear antes de perguntar

Aqui está o ponto que muda a leitura do erro. Quando o estudante erra a rima, nem sempre ele errou o som. Às vezes, ele simplesmente chamou a figura por outro nome.

Imagine o par gato e pato. Se o estudante olha para o pato e pensa “marreco”, ou olha para o gato e pensa “bichano”, a resposta NÃO RIMAM está coerente com o que ele tem na cabeça. O erro é de vocabulário, não de consciência fonológica.

Por isso, nomear as figuras antes de perguntar separa as duas coisas. E a ficha de registro ganha outro valor: o professor pode anotar se a dificuldade apareceu na nomeação ou no julgamento da rima, o que orienta intervenções completamente diferentes.

Possibilidades pedagógicas e níveis de apoio

O kit é versátil. Ele funciona como avaliação diagnóstica de consciência fonológica no início do ano ou de um ciclo, como recurso no atendimento individual ou em dupla (inclusive no AEE) e como rotina de início de aula, em sessões curtas de poucos minutos.

A prancha em branco permite montar pares com o vocabulário da turma: nomes de colegas, palavras de um projeto em andamento, objetos da sala. Palavras significativas aumentam o engajamento e facilitam a nomeação.

A atividade também se ajusta ao nível de apoio de cada estudante:

Para mais apoio: trabalhe com dois ou três pares por sessão e bata palma no som final enquanto repete as palavras.

Para menos apoio: retire as imagens e apresente as palavras apenas oralmente, ou peça ao estudante que produza novas rimas a partir de uma palavra.

Essa progressão, do julgamento (com apoio visual) à produção (sem apoio), acompanha o próprio desenvolvimento da habilidade e permite registrar avanços concretos ao longo do tempo.

Para quem a atividade é indicada

A prática é indicada para estudantes em processo de alfabetização que têm dificuldade em perceber semelhanças sonoras entre palavras, incluindo estudantes com dislexia, TEA ou deficiência intelectual. Também é útil para qualquer turma em fase inicial de leitura e escrita, já que a adaptação beneficia todos.

Um cuidado importante: o material não é diagnóstico. Ele gera observações pedagógicas valiosas, que podem ser compartilhadas com a coordenação, a família e, quando for o caso, com profissionais como fonoaudiólogos e psicopedagogos.

👉 Baixe o kit completo e leve para a sua sala na próxima aula.

[Baixar o kit de rimas grátis]

Perguntas frequentes

1. O que é consciência fonológica e por que começar pelas rimas?
É a capacidade de refletir sobre os sons da fala. A rima envolve uma unidade sonora maior e mais perceptível que o fonema, por isso costuma ser o primeiro nível trabalhado e serve de base para habilidades mais complexas, como a consciência silábica e fonêmica.

2. A atividade Rima ou não rima? serve para diagnosticar dislexia?
Não. O kit é uma ferramenta pedagógica de observação e intervenção. Dificuldades persistentes devem ser encaminhadas para avaliação com profissionais habilitados, que utilizam instrumentos específicos.

3. Posso usar o kit com estudantes que não falam?
Sim. Essa é justamente uma das forças do material. O estudante responde escolhendo e fixando o cartão, sem precisar da fala. Se houver dificuldade motora, ele pode apontar ou indicar o cartão com o olhar enquanto o professor fixa.

4. Com que frequência devo aplicar a atividade?
Sessões curtas e frequentes funcionam melhor que sessões longas e esporádicas. Alguns minutos por dia, como rotina de início de aula, já permitem acompanhar a evolução na ficha de registro.Rima ou não rima? Atividade de rimas adaptada para trabalhar consciência fonológica com inclusão

Profº Gustavo Thayllon
Escrito por

Profº Gustavo Thayllon

Gustavo Thayllon França Silva é psicólogo, psicopedagogo, professor, pesquisador e escritor, com trajetória profissional e acadêmica construída na interface entre Psicologia, Psicopedagogia, Educação Especial, inclusão escolar e desenvolvimento humano. Ao longo de sua carreira, tem dedicado sua atuação à compreensão dos processos de aprendizagem, das singularidades do desenvolvimento e dos desafios que atravessam a escolarização de crianças, adolescentes e adultos, especialmente daqueles que demandam atenção educacional e acompanhamento especializado.

Sua formação interdisciplinar constitui uma das marcas de sua trajetória. Graduado em Psicologia, Psicopedagogia e Pedagogia, construiu uma formação voltada à compreensão do sujeito em suas múltiplas dimensões: psíquica, cognitiva, afetiva, social e educacional. É mestre em Educação e Novas Tecnologias e, atualmente, desenvolve estudos em nível de Doutorado em Educação, aprofundando suas investigações sobre autismo, políticas públicas e inclusão escolar. Sua pesquisa de doutorado parte de uma questão central e profundamente presente no cotidiano das escolas — “O que esta criança tem?” — para problematizar os impasses das políticas públicas de inclusão e os modos como a escola compreende e responde às singularidades das crianças autistas.

Sua formação foi ampliada por estudos especializados em áreas como Psicologia Clínica, Neuropsicologia, Psicopatologia, Psicanálise Clínica, Terapia Familiar, Psicomotricidade, Transtorno do Espectro Autista, Análise do Comportamento Aplicada — ABA, Transtornos Mentais, Neurobiologia e Psicofarmacologia, Atendimento Educacional Especializado e Educação Especial e Inclusiva. Essa formação plural sustenta uma atuação que busca estabelecer diálogos entre a clínica, a escola, a família e as políticas de inclusão.

Como escritor, construiu uma produção bibliográfica expressiva, com mais de 30 livros publicados, além de capítulos de livros, artigos científicos e outros materiais acadêmicos. Sua obra percorre diferentes campos do conhecimento, mas possui como um de seus principais eixos a relação entre Psicologia, Psicopedagogia, Neurociências, Educação Especial e desenvolvimento humano.

Entre seus livros destacam-se obras como Psicologia Educacional, Psicologia Relacional, Psicologia Social no Tribunal e na Clínica, Percepção Social, Atitudes e Cognição, Desenvolvimento Humano nas Diversas Faixas Geracionais: Abordagens Psicopedagógicas e Psicológica, Psicanálise Aplicada à Psicopedagogia, Educação e Psicanálise, Fundamentos de Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Neuropsicopedagogia Clínica, Neurociências e Aprendizagem e Transtornos Funcionais Específicos da Aprendizagem.

No campo da Educação Especial, é autor de obras como Fundamentos da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, Deficiência Visual e Práticas Inclusivas, Práticas e Metodologias Voltadas ao Atendimento Educacional Especializado e à Sala de Recurso Multifuncional, Orientação na Educação Inclusiva, Supervisão na Educação Inclusiva, FTM do Ensino da Pessoa com Deficiências Múltiplas, FTM do Ensino da Pessoa com Altas Habilidades ou Superdotação, Surdez e Educação Física Inclusiva para Pessoas com Deficiência. Também é coautor da obra Ensino da Matemática na Educação Especial: Discussões e Propostas, ampliando sua contribuição para a construção de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas.

Ver todas as publicações →
Canal de transmissão Entre no nosso canal Materiais e avisos toda semana