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Educação Inclusiva

Nem tudo é fase: sinais de autismo que os pais devem observar

Nem tudo é fase: sinais de autismo que os pais devem observar
Sinais de autismo.

Falar sobre autismo na infância não significa procurar um diagnóstico em cada comportamento da criança. Significa, antes de tudo, aprender a observar o desenvolvimento infantil com atenção. O desenvolvimento acontece de maneira singular para cada criança, mas existem alguns indicadores esperados para determinadas fases e alguns sinais que podem indicar a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa.

A tabela utilizada como referência para este texto organiza indicadores do desenvolvimento e sinais de alerta para o TEA em diferentes períodos da infância, destacando aspectos relacionados à interação social, comunicação e brincadeiras. Essa organização também está presente nas diretrizes do Ministério da Saúde para atenção à pessoa com TEA.

É importante lembrar: um sinal isolado não significa que a criança seja autista. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento e sua identificação exige uma avaliação clínica que considere a história da criança, seu comportamento e seu desenvolvimento em diferentes contextos.

1. Observar não é comparar: é acompanhar o desenvolvimento

Uma das principais atitudes que os pais podem desenvolver é aprender a observar como a criança se relaciona com as pessoas, com os objetos e com o ambiente. Isso começa muito cedo.

Nos primeiros meses de vida, por exemplo, é possível observar se o bebê demonstra interesse pelo rosto e pela voz do cuidador, se estabelece momentos de contato visual e se reage às interações. Conforme cresce, outros comportamentos começam a aparecer: buscar o olhar do adulto, antecipar ações, imitar gestos, responder às pessoas e utilizar diferentes formas de comunicação.

Entre 6 e 12 meses, por exemplo, podem ser observados comportamentos antecipatórios e imitativos, como estender os braços para pedir colo ou reproduzir gestos simples. Dificuldades persistentes nesses comportamentos merecem atenção. A própria tabela de indicadores do desenvolvimento utilizada como referência destaca esses aspectos como importantes para a observação.

Outro ponto importante é a comunicação. Nem toda comunicação acontece por meio de palavras. Antes mesmo da fala, a criança comunica desejos, interesses e necessidades por meio do olhar, dos gestos, das expressões faciais, do apontar e da busca pelo outro.

Por isso, os pais podem observar perguntas simples: Meu filho olha para mim quando estou falando? Tenta compartilhar algo que descobriu? Aponta para mostrar alguma coisa interessante? Procura minha reação? Imita gestos? Demonstra interesse em interagir?

Essas perguntas não devem ser utilizadas como um “teste caseiro” de autismo. Elas ajudam a família a acompanhar o desenvolvimento e perceber quando pode ser importante conversar com um profissional.

O Ministério da Saúde também orienta que o desenvolvimento infantil seja acompanhado regularmente e que alterações percebidas pela família sejam compartilhadas com profissionais de saúde.

2. Comunicação, interação e brincadeiras: onde os sinais podem aparecer

À medida que a criança cresce, os sinais de alerta podem ficar mais perceptíveis nas situações cotidianas. E aqui está um ponto importante: não devemos olhar apenas para a fala.

Uma criança pode apresentar dificuldades de comunicação mesmo quando já fala algumas palavras. Por exemplo, pode utilizar poucas iniciativas comunicativas para compartilhar interesses, não apontar para mostrar algo ao adulto, não acompanhar o apontar ou o olhar de outra pessoa ou utilizar determinados gestos de maneira pouco frequente.

Entre 18 e 24 meses, a tabela destaca justamente a importância de observar se a criança acompanha o olhar ou o apontar do outro, se demonstra interesse por objetos oferecidos por alguém e se espontaneamente mostra ou leva objetos ao cuidador para compartilhar seu interesse.

As brincadeiras também oferecem informações importantes. No desenvolvimento esperado, a criança amplia progressivamente suas possibilidades de exploração e interação. Ela manipula objetos, experimenta diferentes formas de brincar e, posteriormente, começa a incorporar elementos sociais e simbólicos às brincadeiras.

As brincadeiras também oferecem informações importantes.
Brincadeiras são importantes.

Por isso, os pais podem observar como a criança brinca, e não apenas com quais brinquedos brinca. Ela explora os objetos de diferentes maneiras? Busca compartilhar a brincadeira? Imita o adulto? Demonstra interesse em brincar com outras pessoas? Utiliza objetos de maneira funcional? Desenvolve brincadeiras de faz de conta conforme sua faixa etária?

Também merecem atenção comportamentos repetitivos, interesses muito restritos ou dificuldades importantes diante de mudanças. Entretanto, novamente, é fundamental evitar interpretações isoladas. Crianças pequenas podem repetir movimentos, organizar objetos, insistir em determinadas brincadeiras ou apresentar preferências intensas sem que isso, sozinho, indique TEA.

O Ministério da Saúde destaca, entre os sinais de alerta, dificuldades na interação social, atraso ou regressão da linguagem, comportamentos repetitivos, resistência a mudanças e alterações na resposta a estímulos sensoriais.

Outro aspecto que merece atenção especial é a perda de habilidades que a criança já havia adquirido. Quando uma criança que utilizava determinada palavra, gesto ou habilidade deixa de utilizá-la, essa mudança deve ser comunicada ao profissional que acompanha seu desenvolvimento.

3. Quando a família deve procurar ajuda?

Talvez essa seja a pergunta mais importante para os pais: quando observar deixa de ser suficiente e é hora de procurar ajuda?

Minha opinião é que os pais não precisam esperar que todas as características estejam presentes para conversar com um profissional. Se existe uma preocupação persistente em relação ao desenvolvimento, vale a pena compartilhá-la.

A família conhece a criança em diferentes situações e, muitas vezes, é justamente quem primeiro percebe que determinado comportamento mudou ou que algumas habilidades não estão aparecendo como esperado. O próprio Ministério da Saúde reconhece a importância do relato familiar na identificação de alterações do desenvolvimento.

Isso não significa que os pais devam chegar ao atendimento dizendo: “Meu filho tem autismo”. O caminho pode ser mais simples: “Tenho observado algumas diferenças no desenvolvimento e gostaria de saber se precisamos investigar.”

A primeira porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde (UBS). O acompanhamento da criança deve ser realizado de forma contínua, considerando crescimento, desenvolvimento, comunicação, comportamento e outros aspectos da saúde.

Entre 16 e 30 meses, por exemplo, profissionais de saúde treinados podem utilizar o M-CHAT, instrumento de rastreio que auxilia na identificação de crianças com sinais de risco para TEA. É importante destacar que rastreamento não é diagnóstico. Um resultado indicativo de risco significa que a criança precisa ser melhor avaliada, e não que necessariamente tenha autismo.

Um exemplo prático pode ajudar a compreender essa diferença. Imagine uma criança de dois anos que raramente aponta para compartilhar interesses, não costuma acompanhar o apontar dos adultos, apresenta pouca iniciativa de interação e demonstra dificuldades importantes nas brincadeiras sociais. Em vez de concluir imediatamente que “é autismo”, a família pode registrar essas observações, conversar com o pediatra ou profissional que acompanha a criança e buscar uma avaliação adequada.

O mais importante é não transformar a observação em vigilância ansiosa. Observar uma criança é conhecê-la. É perceber suas conquistas, suas dificuldades, seus interesses e a maneira particular como ela se comunica com o mundo.

Quanto mais cedo uma possível alteração do desenvolvimento é percebida, maiores são as possibilidades de oferecer apoio adequado. Mas esse processo precisa acontecer com cuidado, sem rótulos precipitados e, principalmente, respeitando a singularidade de cada criança.

A Caderneta da Criança, disponibilizada pelo Ministério da Saúde, também é uma importante ferramenta para acompanhar crescimento e desenvolvimento e registrar informações ao longo da infância.

No fim das contas, a pergunta que os pais devem fazer não é apenas “Meu filho tem algum sinal de autismo?”, mas também: “Como posso compreender melhor o desenvolvimento do meu filho e oferecer a ele o apoio de que precisa?”

Essa mudança de olhar faz toda a diferença. Porque identificar precocemente uma possível necessidade não significa colocar um rótulo na criança. Significa abrir caminhos para que ela seja compreendida, acolhida e tenha suas potencialidades desenvolvidas.

Profº Gustavo Thayllon
Escrito por

Profº Gustavo Thayllon

Gustavo Thayllon França Silva é psicólogo, psicopedagogo, professor, pesquisador e escritor, com trajetória profissional e acadêmica construída na interface entre Psicologia, Psicopedagogia, Educação Especial, inclusão escolar e desenvolvimento humano. Ao longo de sua carreira, tem dedicado sua atuação à compreensão dos processos de aprendizagem, das singularidades do desenvolvimento e dos desafios que atravessam a escolarização de crianças, adolescentes e adultos, especialmente daqueles que demandam atenção educacional e acompanhamento especializado.

Sua formação interdisciplinar constitui uma das marcas de sua trajetória. Graduado em Psicologia, Psicopedagogia e Pedagogia, construiu uma formação voltada à compreensão do sujeito em suas múltiplas dimensões: psíquica, cognitiva, afetiva, social e educacional. É mestre em Educação e Novas Tecnologias e, atualmente, desenvolve estudos em nível de Doutorado em Educação, aprofundando suas investigações sobre autismo, políticas públicas e inclusão escolar. Sua pesquisa de doutorado parte de uma questão central e profundamente presente no cotidiano das escolas — “O que esta criança tem?” — para problematizar os impasses das políticas públicas de inclusão e os modos como a escola compreende e responde às singularidades das crianças autistas.

Sua formação foi ampliada por estudos especializados em áreas como Psicologia Clínica, Neuropsicologia, Psicopatologia, Psicanálise Clínica, Terapia Familiar, Psicomotricidade, Transtorno do Espectro Autista, Análise do Comportamento Aplicada — ABA, Transtornos Mentais, Neurobiologia e Psicofarmacologia, Atendimento Educacional Especializado e Educação Especial e Inclusiva. Essa formação plural sustenta uma atuação que busca estabelecer diálogos entre a clínica, a escola, a família e as políticas de inclusão.

Como escritor, construiu uma produção bibliográfica expressiva, com mais de 30 livros publicados, além de capítulos de livros, artigos científicos e outros materiais acadêmicos. Sua obra percorre diferentes campos do conhecimento, mas possui como um de seus principais eixos a relação entre Psicologia, Psicopedagogia, Neurociências, Educação Especial e desenvolvimento humano.

Entre seus livros destacam-se obras como Psicologia Educacional, Psicologia Relacional, Psicologia Social no Tribunal e na Clínica, Percepção Social, Atitudes e Cognição, Desenvolvimento Humano nas Diversas Faixas Geracionais: Abordagens Psicopedagógicas e Psicológica, Psicanálise Aplicada à Psicopedagogia, Educação e Psicanálise, Fundamentos de Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Neuropsicopedagogia Clínica, Neurociências e Aprendizagem e Transtornos Funcionais Específicos da Aprendizagem.

No campo da Educação Especial, é autor de obras como Fundamentos da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, Deficiência Visual e Práticas Inclusivas, Práticas e Metodologias Voltadas ao Atendimento Educacional Especializado e à Sala de Recurso Multifuncional, Orientação na Educação Inclusiva, Supervisão na Educação Inclusiva, FTM do Ensino da Pessoa com Deficiências Múltiplas, FTM do Ensino da Pessoa com Altas Habilidades ou Superdotação, Surdez e Educação Física Inclusiva para Pessoas com Deficiência. Também é coautor da obra Ensino da Matemática na Educação Especial: Discussões e Propostas, ampliando sua contribuição para a construção de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas.

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