“Ele só fica calmo comigo”: o que fazer quando o aluno autista cria vínculo com apenas um adulto na escola
“Ele só quer fazer as atividades comigo.”
“Se eu não estiver na sala, ele desorganiza.”
“Só me obedece se for eu que falar.”
Essas falas são muito comuns entre professores, monitores e auxiliares que acompanham alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ambiente escolar. Quando a criança cria um vínculo muito forte com apenas um adulto, isso pode trazer conforto e estabilidade para ela — mas também pode gerar dependência, sobrecarga emocional no educador e dificuldades de convivência e aprendizagem.
Neste artigo, você vai entender por que esse comportamento acontece, quais são os riscos dessa dependência e como a escola pode agir para favorecer a autonomia do aluno e a ampliação de vínculos de forma segura e planejada.
Por que o aluno autista se apega tanto a uma única pessoa?
O comportamento de se apegar a um único adulto na escola é mais comum do que parece, especialmente em alunos com TEA. Isso acontece, geralmente, por três motivos principais:
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Necessidade de previsibilidade e segurança:
Crianças com TEA tendem a se sentir mais seguras quando sabem o que esperar. Um adulto que oferece rotinas estáveis, respostas previsíveis e uma forma de comunicação acolhedora pode se tornar uma “âncora” emocional. -
Hipersensibilidade emocional:
Alunos com autismo, mesmo os não verbais, percebem nuances de tom, expressões faciais e mudanças no ambiente. Quando encontram alguém que os compreende e respeita seus limites, tendem a se apegar profundamente. -
Dificuldade de generalização de vínculos:
O TEA pode afetar a habilidade da criança de generalizar comportamentos sociais. Isso significa que ela pode se sentir segura com um adulto, mas não conseguir repetir esse padrão com outros, mesmo que sejam igualmente afetivos.
Isso é um problema?
Não necessariamente. Ter um vínculo afetivo seguro com um adulto é algo positivo. No entanto, quando esse vínculo se torna exclusivo e impede o aluno de interagir com outros educadores, colegas ou ambientes, ele passa a limitar o desenvolvimento da autonomia, da socialização e da aprendizagem.
Além disso, essa dependência afeta diretamente a rotina da escola:
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O aluno recusa-se a participar das atividades com outros professores
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A aprendizagem fica condicionada à presença de uma única pessoa
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O educador “referência” sofre sobrecarga emocional e cansaço
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Há dificuldades na substituição em casos de falta, férias ou trocas na equipe
Por isso, o objetivo da escola deve ser construir uma rede de segurança afetiva mais ampla, sem romper o vínculo original, mas diluindo a exclusividade de forma cuidadosa e planejada.
Como ampliar os vínculos sem causar desorganização?
Veja a seguir algumas estratégias práticas que funcionam para ajudar o aluno com TEA a confiar em outros adultos na escola:
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Integração gradual:
Nunca “arranque” a criança da relação que ela construiu. Ao invés disso, vá inserindo um novo adulto aos poucos, com a presença do educador com quem ela já tem vínculo. -
Crie rotinas de dupla mediação:
Nas primeiras semanas, planeje momentos em que o novo adulto estará junto do professor de referência em atividades simples e previsíveis. Isso ajuda a naturalizar a presença da nova pessoa. -
Use objetos de transição:
Criar símbolos visuais que indiquem a troca de mediação (como cartões de cores, pulseiras, etc.) pode ajudar a criança a entender que, mesmo com outro adulto, ela estará segura. -
Reforce positivamente as interações com os novos adultos:
Toda vez que o aluno aceitar interagir com outra pessoa, valorize a conquista com elogios, reforços visuais ou recompensas simbólicas. -
Planeje os momentos de ausência com antecedência:
Se o educador de referência precisar faltar, combine com o aluno, explique o que vai acontecer e quem estará com ele. Antecipar mudanças é essencial para evitar crises. -
Promova atividades em grupo pequeno com mais de um educador:
Isso ajuda a diluir o foco em um único adulto e a criar familiaridade com outros nomes, vozes e gestos.
E se o aluno entrar em crise com outro professor?
Essa possibilidade existe — e precisa ser encarada com preparo, e não com culpa. O importante é registrar a ocorrência, buscar entender o que desencadeou a crise e ajustar o plano de apoio individual.
Algumas dicas:
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Mantenha a rotina o mais previsível possível
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Dê tempo para a criança se reorganizar
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Valide os sentimentos do aluno
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Revise o PEI para incluir metas de ampliação de vínculos
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Garanta o suporte emocional também para o educador que assumiu a mediação
Lembre-se: a crise é um sinal de que algo precisa ser ajustado, e não de que a tentativa falhou.
Qual o papel da família nesse processo?
A família pode ser uma grande aliada na ampliação de vínculos na escola. Oriente os responsáveis a:
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Conversarem com a criança em casa sobre a existência de outros professores
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Validarem positivamente as novas experiências escolares
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Evitarem reforçar a dependência emocional (como dizer “sem a prof. X você não vai conseguir”)
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Compartilharem com a escola informações sobre o que acalma, motiva ou desorganiza a criança
A comunicação entre escola e família é uma ponte valiosa para tornar o ambiente escolar mais seguro, coerente e eficaz para o aluno.
O que diz a legislação e o PEI sobre isso?
A Lei Brasileira de Inclusão e as diretrizes da Educação Especial defendem o direito do aluno com deficiência à participação plena no ambiente escolar, com os apoios necessários para sua autonomia e desenvolvimento.
O PEI (Plano de Ensino Individualizado) deve prever metas progressivas para o aluno, e isso pode incluir:
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Ampliar interações com diferentes adultos
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Participar de atividades com mais autonomia
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Reduzir dependência de mediação exclusiva
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Explorar ambientes variados da escola
Tudo isso deve ser feito com acompanhamento, sensibilidade e avaliação constante, respeitando o tempo e os limites de cada criança.
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