Sou professora a 22 anos na Rede Pública de Nova Lima e estou na sala de recursos multifuncionais a 11 anos. Nesse caminho todo, vi uma mudança que me alegra, hoje A grande maioria dos nossos estudantes da Educação Especial está matriculada nas classes comuns, junto com os colegas. Isso é uma conquista e eu comemoro. Mas confesso que também é um desafio de todo dia, porque matricular não é a mesma coisa que incluir de verdade
Uma criança só participa, aprende e se desenvolve quando a escola se organiza para isso e essa organização não pode ficar nas costas de um professor sozinho. É aí que entra o ensino colaborativo e a sua forma mais direta, que é o coensino.
Entenda como funciona:
Vamos por partes, porque esses dois termos se confundem bastante.
Ensino colaborativo: é toda parceria entre o professor da sala comum e o professor do Atendimento educacional especializado (AEE). Ela pode acontecer no planejamento, na avaliação, na conversa sobre um estudante específico.
Coensino mais do que isso: é quando os dois professores estão juntos, ao mesmo tempo, na mesma sala, dividindo a responsabilidade de ensinar aquela turma. Nenhum dos dois fica de fora olhando o outro trabalhar. Os dois ensinam.
Na prática não existe uma fórmula única, e a literatura descreve algumas maneiras de organizar essa parceria dentro da sala, um professor conduz a explicação enquanto o outro apoia individualmente quem precisa, os dois dividem o conteúdo da aula, cada um ensinando uma parte. Um propõe uma abordagem diferente para um grupo pequeno, enquanto o outro segue com a turma, ou, no nível mais avançado, os dois ensinam juntos o tempo todo, revezando com naturalidade (Cook; Friend, 1995 ).
Nenhum desses formatos é melhor que o outro por si só ponto o que importa mesmo é que a responsabilidade seja dividida de verdade, e não terceirizada para o professor de apoio, como se ele estivesse ali só para tomar conta de uma criança.
Um exemplo prático de sala de aula:
Vou contar uma situação que vivo com frequência. Um estudante com o transtorno do espectro autista tem dificuldade de acompanhar uma atividade de leitura coletiva na turma comum ponto antes de eu entrar na sala, converso com a professora Regente sobre o conteúdo daquela semana, e isso, é planejamento conjunto, não improviso.
Na aula, enquanto ela conduz a explicação para a turma toda, eu acompanho de perto esse estudante e uso apoio visual, configuras e a sequência dos Passos, para que ele entenda o que está sendo pedido ponto em outros momentos é ela quem se aproxima dele, e eu assumo a condução com o restante da turma. A gente troca de papel e isso só funciona porque combinamos antes
e o ganho não é só da criança com deficiência. A turma inteira se beneficia de uma aula mais organizada, com mais recursos visuais e mais atenção disponível. Os colegas sem deficiência também têm os seus dias difíceis de concentração e acompanham se apoiando nos mesmos recursos.
Também vejo o contrário, sem esse combinado cada aula vira improvisação e o estudante com deficiência fica passivo só acompanhando de longe.

Estudos científicos sobre o tema:
A literatura confirma o que a nossa prática já mostra. Os dados do Censo Escolar apontaram que, em 2025, 93,5% das matrículas da Educação Especial no Brasil já estavam nas classes comuns (INEP, 2026), ou seja, a parceria entre o professor regente e o professor especialista deixou de ser exceção e virou necessidade do nosso dia a dia.
As pesquisas sobre coensino (Lehr, 1999 ) apontam três fatores que fazem esse trabalho dar certo: a participação voluntária dos dois profissionais, o tempo de verdade para o planejamento conjunto e não aquela conversa rápida no corredor e a formação específica para atuar de forma colaborativa. Quando falta algum desses três, o coensino acaba virando só divisão de tarefas, sem ganho real para o estudante.
Outro achado importante é a colaboração que acontece em estágios. No começo a comunicação entre os dois professores costuma ser mais formal e distante. Depois vem uma fase de comprometimento, com um diálogo mais frequente e aberto. Só então se chega ao estágio em que os dois realmente trabalham em conjunto, um complementando o outro (Gately; Gately, 2001 ). E as pesquisas são honestas ao dizer que esse último estágio nem sempre é alcançado, porque ele depende também de mudanças na cultura da escola, e não só da boa vontade de dois professores. Então, se no início parecer difícil, saiba que é normal. Colaboração a gente constrói.
O Plano Educacional Individualizado (PEI) também aparececomo uma ferramenta central nesse processo. Mais do que um documento burocrático, ele atua como um mecanismo essencial e estruturador do percurso pedagógico, evitando que o estudante fique desprovido de suporte. Segundo Hudson e Borges (2020), o instrumento é conhecido por subsidiar e nortear a atuação docente, estabelecendo objetivos e metas que garantem a acessibilidade curricular e a mediação pedagógica. Além disso, tal planejamento organiza o ensino a partir das potencialidades e dificuldades de cada educando, alinhando as expectativas curriculares às suas necessidades específicas.
Conforme apontam Souza, Sousa e Gomes (2022), o documento é a principal ferramenta de apoio pedagógico para enriquecer a escolarização, já que a sua ausência pode prejudicar o desempenho do estudante. As pesquisas e estudos de caso demonstraram que, quando esse trabalho conjunto e colaborativo acontece com consistência e intencionalidade, como no uso de intervenções lúdicas e adaptadas, os resultados positivos se manifestam em múltiplas frentes, proporcionando avanços significativo na socialização, no raciocínio, na comunicação, nas habilidades acadêmicas e na autonomia da criança.
Vale dizer que essa preocupação em pensar o ensino a partir de cada criança não é nova. Já em 1934, Helena Antipoff defendia a individualização do ensino, essa ideia de que o ensino deve procurar satisfazer as necessidades de cada criança, levando em conta as suas particularidades. E ela mesma se queixava de que esse princípio, apesar de ser ensinado nos cursos de formação, não chegava até a sala de aula. O coensino, quase um século depois, é uma das formas concretas de finalmente colocarmos essa ideia em prática.
Resumo e dica final
Se você é professor e ainda não trabalha em coensino, comece pequeno: escolha um dia da semana para sentar com um colega, regente ou especialista,para planejar juntos uma única atividade. Não precisa ser aula toda, nem todos os dias da semana. E não se cobre um resultado perfeito logo de início. É normal sentir um certo estranhamento em dividir “a sua sala de aula” com outro professor, mas com a prática constante esse diálogo vai ficando mais leve.
A minha dica, depois de mais de uma década na sala de recursos, é esta: COLABORAÇÃO DE VERDADE NÃO NASCE PRONTA! Ela se constrói aula após aula, com conversa aberta e com vontade de dividir a sala. Os resultados aparecem primeiro no estudante, mas alcançam a turma inteira, e é por isso que eu não desisto de buscar caminhos melhores para as nossas crianças.